“Os aviões não pousavam, as crianças gripadas direto e a castanha acabou”, diz a moradora.
Por Francisco Costa – Voz da Terra – Entre julho e dezembro de 2024, as queimadas atingiram em cheio os territórios quilombolas de Rondônia. A comunidade de Pedras Negras, localizada no município de São Francisco do Guaporé, foi a mais afetada.
A média de poluição do ar por material particulado fino (PM 2.5) chegou a 44 microgramas por metro cúbico, quase o triplo do limite seguro definido pela Organização Mundial da Saúde.

A fumaça gerada pelo fogo não só afetou o ar que a população respirava, mas trouxe prejuízos diversos.
A reportagem do Voz da Terra esteve na comunidade para produzir uma série de reportagens na Amazônia sobre a análise do fogo nos territórios feito pelo InfoAmazonia.
Dados do Copernicus e do IBGE, mostraram que outras comunidades quilombolas de Rondônia, como Santa Fé, Forte Príncipe da Beira, Vale do Guaporé, Laranjeiras e Santo Antônio do Guaporé, também registraram níveis críticos de poluição. A fumaça afetou não só a saúde, mas toda a dinâmica econômica dessas comunidades que vivem da agricultura, da pesca e do turismo.
Irineide Rodrigues vive no Quilombo Pedras Negras em São Francisco do Guaporé (RO), desde 2005. Pedagoga e mestre em linguística africanística, ela chegou por meio de uma expedição universitária e nunca mais saiu.

As queimadas de 2024 causaram muitas mudanças na vida das famílias. “Tivemos um prejuízo de mais de R$ 232 mil. As bebidas venceram, os aviões não conseguiram pousar por causa da fumaça”, diz. A pedagoga atua na educação e no turismo comunitário.
O período de pesca é o auge da economia no Quilombo. Pacotes de viagens chegam a custar R$ 1.500 por pessoa, com transporte, alimentação e hospedagem inclusos. Mas tudo desmoronou depois que o fogo invadiu as florestas locais. “Com a fumaça, os aviões não desciam. Ficamos com a estrutura vazia. Foram prejuízos para mais de R$ 200 mil só aqui. Toda a comunidade perdeu.”
Além do turismo, a castanha da Amazônia é outra base econômica. “Só daqui saem 600 toneladas por ano. Mas o fogo destruiu tudo. Acabou. Até agora só temos umas oito sacas. É um baque.” Segundo ela, o produto é vendido principalmente para atravessadores da Bolívia, que chegam com mercadorias em troca da castanha.
Na saúde, o cenário também causou preocupações. “A maioria das crianças vivia gripada, com nariz escorrendo e tosse. Os mais velhos tiveram complicações. Minha sogra, matriarca da comunidade, teve falta de ar e dor no pulmão. Foi para Porto Velho fazer tratamento.”
Para 2025, com a previsão de um novo El Niño, a preocupação só aumenta. “A seca do rio afeta tudo. Não escoa produto, não chega mercadoria. Estou montando um relatório para pedir apoio. Aqui estamos sem renda.”
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